Uma das personagens mais controversas da literatura brasileira finalmente toma as rédeas de sua própria história, com uma abordagem marcante, irônica e contundente.
A nova montagem de Dom Casmurro, apresentada pela Cômica Cia de Teatro em Mariana, propõe uma reviravolta no ponto de vista consagrado por Machado de Assis: agora é Capitu quem conta sua versão, questiona e reconstrói sua trajetória.
Com uma abordagem focada na pesquisa de linguagem, no trabalho em equipe e na apresentação em diferentes locais, a Cômica Cia de Teatro reforça, nessa produção, seu interesse por obras que dialogam com o presente e desafiam interpretações tradicionais.
Após passar pelos distritos de Cachoeira do Brumado e Padre Viegas, o espetáculo teve suas apresentações transferidas para o Cine Teatro Municipal de Mariana nos dias 25 e 26 de Abril devido às condições climáticas instáveis, encontrando no espaço fechado um ambiente propício.
A imersão proporcionada pela ambientação intensificou a experiência do público, que reagiu com entusiasmo, entre risos, emoção e aplausos de pé ao final.
Sob a direção de Alex Carvalho, a encenação aposta em uma estética simbólica e minimalista, com imagens visualmente impactantes ocupando constantemente o espaço cênico.
A interpretação de Capitu como narradora e personagem, marcada pelo empoderamento e complexidade, desafia as interpretações tradicionais masculinas que a reduziram a um enigma ou suspeita. A montagem a apresenta como uma figura vibrante, contraditória e profundamente humana, que reivindica sua existência sem pedir perdão.



O elenco se destaca pela coesão, ritmo e entrega ao jogo teatral, enquanto a trilha sonora original, assinada por Filipe Conde Mascaro, Gabriel Baez e Marina João Cangussu, estrutura o espetáculo e cria momentos de forte conexão emocional com o público.
A abordagem feminista da montagem é direta, provocativa e incendiária, culminando na cena final em que Capitu confronta a versão de Bento Santiago e reivindica sua própria verdade, tensionando não apenas a narrativa machadiana, mas também os mecanismos históricos de silenciamento das mulheres.
Mais do que uma simples adaptação, essa montagem é uma reescrita em cena que dialoga com o presente sem perder a essência do clássico, dando voz a Capitu de forma poderosa e inesquecível.




























