Santo Antônio do Itambé: turismo, território e a mística dos novos quilombos

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Localizado na região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, Santo Antônio do Itambé se destaca por reunir natureza preservada, cultura viva e forte organização comunitária. De acordo com dados do IBGE, o município possui pouco mais de 4 mil habitantes e mantém uma dinâmica social marcada pela proximidade entre as pessoas, pela valorização dos saberes tradicionais e pela relação direta com o território.

Inserida em um contexto de paisagens montanhosas, cachoeiras e áreas de conservação ambiental, a cidade conta com acessos facilitados por rodovias estaduais e boa conexão com municípios vizinhos. A sinalização urbana e turística é um dos pontos positivos do município, contribuindo para a orientação dos turistas e facilitando o deslocamento tanto na área urbana quanto nos caminhos que levam aos atrativos naturais.

Entre os principais destaques está o Parque Estadual do Pico do Itambé (PEPI), que abriga o ponto mais alto do Vale do Jequitinhonha e exerce papel estratégico na preservação ambiental e na educação ambiental da região. Além do Pico do Itambé, o território reúne trilhas, cachoeiras e áreas naturais bem cuidadas, muitas delas próximas à sede do município e utilizadas também como espaços para eventos culturais e esportivos.

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A hospitalidade mineira é outro traço marcante de Santo Antônio do Itambé. A população local é reconhecida pelo acolhimento e pela valorização da gastronomia tradicional. A produção artesanal de queijos, com destaque para o Queijo Maria Nunes, reforça a identidade do município e evidencia seu protagonismo na tradicional região do Queijo do Serro, integrando o turismo à vida rural e aos modos de fazer transmitidos entre gerações. Restaurantes, feiras e pequenos empreendimentos complementam essa vivência, conectando-se à cultura local e ao cotidiano da comunidade, tornando-se uma alternativa de experiência autêntica.

O município dispõe de pousadas, chalés, casas de temporada, camping e espaços de alimentação que permitem receber visitantes em diferentes períodos do ano. Essa estrutura existente cria uma base importante para o crescimento do turismo, especialmente quando associada à qualificação contínua dos serviços, à ampliação da divulgação e à diversificação da oferta turística.

A organização comunitária é um dos grandes diferenciais de Santo Antônio do Itambé. Associações, coletivos culturais, grupos de artesãos e condutores atuam de forma articulada, promovendo cultura, memória, artesanato e diálogo entre comunidade, poder público e iniciativa privada. Essa articulação contribui para uma experiência turística mais integrada e para a melhor distribuição dos fluxos de visitantes pelo território.

Nesse contexto, ganham relevância as comunidades quilombolas, como a Comunidade dos Martins, que preservam saberes ancestrais, práticas culturais e modos de vida profundamente conectados à história local. Esses territórios representam não apenas a memória coletiva, mas também espaços contemporâneos de organização, pertencimento e geração de renda.

Ao refletir sobre o significado dos quilombos na atualidade, a escritora mineira Conceição Evaristo, em texto publicado no jornal O Globo (2019), afirma que os quilombos extrapolam sua origem histórica e se afirmam como espaços vivos de resistência, proteção e construção coletiva. Para a autora, os “novos quilombos” se formam sempre que pessoas se organizam para preservar a memória, a identidade, os modos de vida e para criar alternativas coletivas de existência diante dos desafios contemporâneos. “É tempo de formar novos quilombos, em qualquer lugar que estejamos”, escreve Conceição — ideia que dialoga diretamente com a realidade de Santo Antônio do Itambé, onde associações, feiras comunitárias, comunidades tradicionais e iniciativas locais funcionam como quilombos contemporâneos, gerando pertencimento, renda e fortalecendo o território a partir de quem vive nele.

Para Giordano Leonardo Alves, liderança local envolvida nas discussões sobre o turismo no município, o momento é de consolidar avanços e estruturar ações estratégicas. Segundo ele, a melhoria do turismo passa pela qualificação das divulgações e pela definição mais clara dos nicho, com recursos públicos destinados especificamente para essa finalidade.

Giordano também destaca a importância de incentivar produtores, condutores e profissionais locais nos eventos oficiais, com a vinculação dessas atividades a algum tipo de compensação financeira, estimulando a permanência das pessoas no setor. Outro ponto apontado é a ampliação de cursos de capacitação, como o Cadastur, voltados à profissionalização dos serviços turísticos.

Entre as propostas está ainda o fortalecimento do guiamento e da condução em atrativos naturais, como o Parque Estadual do Pico do Itambé, Campinas e a Cachoeira do Rio Vermelho, com a adoção do guiamento obrigatório como forma de organizar os fluxos, proteger os atrativos e gerar renda, especialmente durante os dias de semana. Ele cita também a possibilidade de um veículo público com saídas regulares, funcionando como um transporte circular para os atrativos do Parque, a exemplo do que ocorre no Pico da Ibituruna, em Governador Valadares, além de uma integração mais estreita entre as atividades culturais, ambientais e turísticas do município.

Ao articular natureza, cultura, organização social e planejamento, Santo Antônio do Itambé avança na construção de um turismo autêntico, baseado em suas próprias raízes e no protagonismo comunitário. O turismo, nesse contexto, se apresenta como ferramenta para fortalecer os “novos quilombos” do território, gerar oportunidades, valorizar a cultura local e promover um desenvolvimento sustentável e equilibrado.

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