Pesquisa expõe vulnerabilidade de mulheres negras em Antônio Pereira

Pesquisa expõe vulnerabilidade de mulheres negras em Antônio Pereira
Estudo interinstitucional mostra impacto da mineração na saúde mental, renda e qualidade de vida do distrito
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Um novo relatório técnico sobre as condições de vida em Antônio Pereira, distrito de Ouro Preto, traz números que reforçam a desigualdade que recai sobre as mulheres negras da comunidade. O estudo PEREIRA.DOC, desenvolvido por universidades mineiras entre 2022 e 2025, analisou fatores ambientais, socioeconômicos e emocionais, revelando que esse grupo concentra os níveis mais altos de adoecimento psicológico e insegurança material.

A pesquisa ouviu 171 moradores e utilizou instrumentos reconhecidos de qualidade de vida e sofrimento psíquico. O resultado mostra que quase 86% das mulheres apresentam sintomas relacionados a ansiedade, depressão ou insônia — uma proporção muito superior à registrada entre os homens. Entre as entrevistadas negras e mais velhas, a incidência de ideação suicida também aparece com maior frequência.

O levantamento mostra que a maior parte das entrevistadas está na faixa dos 50 aos 59 anos. Com baixa escolaridade, elas se concentram em trabalhos informais, como faxinas, serviços no comércio e atividades ocasionais. Quase uma em cada cinco vive com menos de R$ 500 mensais. A pesquisa destaca que, embora o distrito seja marcado pela mineração, 83% das mulheres nunca atuaram nesse setor.

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Os indicadores ambientais são um dos pontos que mais pesam na avaliação das moradoras. A poeira mineral, o barulho constante e o medo da barragem compõem um cenário de insegurança que derruba a percepção de qualidade de vida. No domínio ambiental do WHOQOL-BREF, as mulheres atribuíram uma das piores notas do estudo, com avaliação ainda mais crítica entre lésbicas entrevistadas.

O relatório aborda como a noção de que mulheres negras “aguem tudo” acaba mascarando o sofrimento real. A sobrecarga doméstica, o cuidado com familiares e a necessidade de sustentar a casa em condições adversas reforçam o desgaste cotidiano. Mesmo assim, 94% delas relatam alguma forma de organização coletiva ou estratégias de enfrentamento, com destaque para grupos locais de apoio.

Os riscos ambientais foram citados com frequência ao longo da pesquisa. Sete em cada dez mulheres consideram a poluição um problema muito grave. A preocupação com a possibilidade de rompimento da barragem também se mantém elevada — reflexo de anos de tensão após evacuações emergenciais e obras no complexo minerário. O consumo excessivo de álcool na comunidade aparece como outra preocupação, principalmente entre quem convive com violência e problemas estruturais.

A Prefeitura de Ouro Preto afirma que tem ampliado a assistência em saúde mental, com equipe fixa de psicólogos e assistente social no distrito, custeada por ações reparatórias da Vale. A UBS local passou a funcionar por 12 horas diárias, com espaço para atendimentos de urgência.

A Samarco informa que investiu R$ 26 milhões em iniciativas voluntárias em 2024, entre infraestrutura, projetos sociais e contenção ambiental. Para 2025, a previsão é de R$ 6,5 milhões em programas de qualificação, empreendedorismo e tecnologia voltados para comunidades próximas às operações.

Ao reunir depoimentos, dados estatísticos e análise ambiental, o estudo aponta que a vida em Antônio Pereira segue atravessada por desigualdades históricas e impactos diretos do modelo minerário. Para os pesquisadores, políticas públicas e ações de reparação só terão efeito duradouro se considerarem a centralidade das mulheres, especialmente as negras, na manutenção da vida comunitária.

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